DICAS DO PARAGUAI

A Casa China fechou e o Paraguai repensa

12.04.2019

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Nesta semana todos fomos pegos de surpresa com a notícia do fechamento de uma das lojas mais tradicionais de Ciudad del Leste: a Casa China.

Depois de 49 anos de atividade, a família tomou a difícil decisão de fechar as portas diante do cenário econômico nada favorável que vem afligindo compristas e lojistas.

Em atividade desde 1970, a Casa China era uma das mais antigas e robustas lojas de Ciudad del Leste e queridinha dos compristas. Era uma referência em “multi-departamentos” quando o Paraguai ainda nem sabia bem o que era ser uma loja multi-departamentos.

 

 

 

Atuando no ramo de eletrônicos, eletroportáteis, artigos para cozinha, decoração, roupas adulto e infantil, jogos e esportes, perfumes, maquiagens e brinquedos. Como podem ver … multi-setorial mesmo. Hoje vocês podem olhar pro tamanho que era a Casa China e pensar que é um espaço pequeno para uma loja que se propõe a ter relevância no comércio local e atuar em tantas frentes de comércio.

Mas pensando na história de Ciudad del Este, a Casa China era aquilo que visualizávamos como as lojas de médio a grande porte na cidade. Para a época, era isso mesmo. Não havia tanta variedade de marcas. Temos que lembrar que nos anos 80, as marcas americanas faziam muito sucesso, as marcas japonesas também, mas o mercado chinês ainda estava muito longe de se tornar o grande exportador mundial que se tornaria um dia. As prateleiras eram realmente mais enxutas.

Mas os anos passaram e muita coisa mudou nesse tempo. Pra se moldar nos novos tempos, uma empresa deste porte poderia ter tomado múltiplos rumos. Poderia ter crescido, expandido, investido em novas marcas. Ou poderia ter se mantido multidepartamental mas sem tanta variedade e desde que especializada e referência em algo, com alto volume de vendas em determinado setor específico, garantindo preços mais competitivos. Ou por fim, teria que ter rumado pelo modelo da pechincha.

Hoje quando você imagina uma multidepartamentos do porte da Casa China, que para os tempos de hoje consideramos uma loja de porte menor, já presumiríamos um outro modelo de atuação: uma loja num perfil mais auto-service, com produtos mais populares e logística otimizada e enxuta. Ou seja, o modelo da pechincha.

Mas não foi o que aconteceu. Olhando pra loja que fecha, ela lembra em muitas coisas a loja de outrora. Mas apesar da fachada que é como um sorriso que ilude e esconde a tristeza da alma, por dentro os reflexos da crise eram cada vez mais visíveis.

Uma lástima pra quem lembra daquela imponente construção vermelha no meio da avenida. Ela não precisava ser a maior nem a com maiores letreiros – apenas sabia ser vista.

Com uma estrutura ampla projetada pra relembrar a arquitetura oriental, os princípios de simetria, geomancia, vigas pares de sustentação e as cores tradicionais podiam ser avistadas de longe. A construção era um marco de referência não apenas para compras na própria loja mas para se localizar no centro de compras. Não havia como passar despercebida. E nos últimos anos a modernização física se viu na repaginação da loja, com uma nova fachada espelhada incorporada mas sem perder os traços orientais.

Por dentro observamos uma reforma, que se arrastou, finalizou e ninguém entendeu o propósito. Após alguns meses e várias visitas percebi a nítida mudança e que algo grave ali acontecia, mas nem de longe imaginei que as portas corriam risco de cerrar. Pensava que era uma fase ruim – como a nossa, que também seguramos o freio na hora de fazer compras, mas esperamos ansiosos por dias melhores para voltarmos a bonança de voltar pra casa cheios de sacolas.

A dificuldade era visível principalmente pela falta de investimento em novidades. Você poderia ficar meses e meses sem voltar a Casa China que a cada retorno encontraria basicamente “mais do mesmo” nas prateleiras. Ano após ano, vimos a loja se estancar em algum lugar do passado. E aquilo que sempre mais me motivou pra ver no Paraguai, as “coisinhas diferentes”, eu já não encontrava lá.

Infelizmente a Casa China não pode esperar por esse momento de retorno da bonança. Diante de tantas transformações que ocorreram em Ciudad del Leste nesse tempo, com lojas fechando e abrindo, com crises indo e vindo, governos saindo, governos chegando, dólar disparando, shoppings sendo construídos e angariando grande clientela …. do alto da sua face oriental, a Casa China apenas observou inerte tudo se transformar a sua volta. Espelhou-se na fachada mas não se olhou no reflexo. Não conseguiu ver o que havia de errado e o que precisava mudar.

Numa nova era, com as lojas se modernizando, uma nova forma de pensar e abordar o público, com investimentos em publicidade e mídias acontecendo, a Casa China sequer se preocupava em atualizar seu site. Hoje, você ainda pode ver a página enaltercer seus 42 anos de existência logo na primeira página. Oras, a casa já beirava os 50 anos e sequer atualizava sua página inicial.

 

 

O site de layout antigo era o reflexo de um modo antigo de conduzir o comércio. Entrar na Casa China e ser perseguida por vendedoras apáticas fazia parte da rotina da casa. Você sabia que fazia parte da experiência do Paraguai dos anos 80. Mas 20 anos depois, todos nós sabemos que ninguém mais precisa ter uma vendedora inconveniente no cangote a cada 5 passos, te vigiando, te importunando, te analisando, te encarando com ar de tédio. Não havia saia curta o suficiente que pudesse compensar este atendimento.

Enquanto tantas lojas de Ciudad del Este investem no bom relacionamento, no aprimoramento do atendimento, no trato, na agilidade, na relação via mídias, no conhecimento dos produtos, trazem maquiadoras, visitar a Casa China era uma viagem no tempo. Não exatamente aos melhores tempos.

A Casa China parou no tempo. Simplesmente isso. O mundo mudou, o comércio mudou, o Paraguai mudou, o próprio comércio interno local de Ciudad del Este mudou …. e a Casa China parecia ainda agarrada nas décadas passadas.

E por que eu falo especificamente de lá, com tantas lojas que abriram e fecharam nesse tempo ? Exatamente porque nem todas essas lojas tem toda essa história, essa tradição, essa vantagem antecipada que poderia ter para o sucesso mas desperdiçou, tanto reconhecimento, boa localização e referenciação … por isso é tão doloroso e sentido para nós vermos a loja fechar. É um choque. Nem sabemos porque. Afinal analisando, há tanto sentido nisso. Mas ainda assim, nos pega desprevinidos. É como aquele parente adoentado, que vai mal há muito tempo, todos dizem que vai morrer a qualquer momento, mas persiste ano a ano – e quando finalmente o caixão é lacrado, a família se vê aos prantos e sem acreditar. Meu Deus, por que ?

Porque o tempo passou, a doença avançou e a pessoa não parou pra se tratar com os novos remédios do mercado. Não se atualizou sobre os novos cuidados. Não mudou seus hábitos. E aí vem as mudanças do ambiente, devastando todos …. e os fracos se vão. E até mesmo os que foram fortes mas já não tem mais como resistir.

É a doença do congelamento. A doença do regresso. A doença de quem não consegue acompanhar os novos tempos.

E agora, a dúvida que fica: o que vem em seguida ? Aguardamos ansiosos para saber o destino daquela construção icônica em local tão privilegiado da cidade. Quem sabe a família já tenha até algo pensado estrategicamente pra voltar com gás todo para uma nova empreitada no Paraguai ? Esperamos que sim … que venham boas coisas. Apesar de tudo, a Casa China nos deixa lembranças de bons tempos. Quem não teria saudade dos áureos anos de sacoladas nas costas ao retornar ao Brasil ? Mas ficar se lembrando e lamentando apenas não dá … bora se projetar novos meios de comprar e vender bem dentro do novo cenário que toma conta de Ciudad del Este.

 

Até mais.

obs.: Para quem curte assistir aos vídeos, fiz um vídeo sobre o tema para o youtube também, abordando o assunto do fechamento da Casa China.

 

 

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