DICAS DE FOZ

Entenda a estátua do Santos Dumont nas Cataratas do Iguaçu

07.08.2020

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Por que tem uma estátua do Santos Dumont nas Cataratas do Iguaçu ?

 

Santos Dumont marcaria para sempre a história de Foz do Iguaçu com sua passagem pela região a ponto de ganhar uma estátua no Parque Nacional do Iguaçu. Mas não é por conta da aviação que tem uma estátua sua nas Cataratas do Iguaçu. Então qual o motivo ?

O motivo está totalmente interligado com sua passagem pelas Cataratas do Iguaçu e um grande feito que resultou desta visita.

 

 

Foz do Iguaçu das Antigas

 

Vamos antes contextualizar um pouco como era o panorama da cidade naquela época em que Santos Dumont conheceu as Cataratas do Iguaçu.

O ano era 1916. Já faziam 10 anos que o aviador havia voado com o 14 bis em Paris. Mas nem só de voar era a vida de Santos Dumont. Para fazer feitos como desenvolver um avião, Santos Dumont se dedicou longos anos de estudos e experiências.

Naquele ano de 1916 estava Santos Dumont participando de um congresso Pan-Americano quando resolveu esticar sua viagem de Buenos Aires para Puerto Aguirre, na região de Posadas, na Argentina, para conhecer as quedas d’água da região. As famosas Cataratas do lado argentino.

Ficou bastante maravilhado com a beleza natural da região. Na época aquela região de Posadas já apresentava na sua bacia hidrográfica um trânsito de barcos a vapores levando e trazendo tanto passageiros como cargas.

Até hoje aquela região tem um trânsito importante hidroviário de cargas para escoamento principalmente de grãos e outros produtos.

Mas naquele início de século em Foz do Iguaçu uma semente germinava: uma cidade se formava ainda timidamente. Ali tínhamos a Vila Iguassu em formação. Exato, nossa cidade tinha nome de “Vila”.

A cidade ainda se desenvolvia.  A cidade que futuramente viraria uma meca do turismo ainda era embrenhada por ruelas de terra batida e casinhas muito simples.

Para vocês terem uma ideia, nas fotos abaixo vocês podem ver imagens da Avenida Brasil de 1933 a 1969 (elas são de 1933, 1936, 1940 e 1969). E nós estamos falando do ano de 1916 (ou seja, de 17 anos ainda da primeira foto – imagem o quanto a cidade ainda era de ruelas !).

 

 

O primeiro Hotel de Foz do Iguaçu

 

Mas naquela ainda arcaica Vila Iguassu morava um homem de espírito bastante empreendedor e que se mostraria um pioneiro desbravador da cidade de Foz do Iguaçu: Frederico Engel. Ele foi o proprietário do primeiro hotel de Foz do Iguaçu, o Hotel Brasil.

O Hotel Brasil era um casarão antigo, de pé direito alto, com janelões muito grandes, que aos nossos olhos hoje poderia parecer um tanto quanto assustador, mas para época era um baita casarão.

 

 

Na época as Cataratas do Iguaçu que ficavam do lado brasileiro estavam dentro de uma área de terreno que pertenciam a um particular: o uruguaio Jesús Val. E Frederico Engel estava sempre tentando captar turistas para levar em passeios para visitar as Cataratas localizadas nas terras do uruguaio.

Para tanto chegou inclusive a arrendar um pedaço de terra dentro da propriedade de Jesús Val onde construiu uma filial do seu Hotel Brasil e poder ali hospedar seus turistas interessados em passar uma noite ou outra desfrutando das belezas da natureza ainda mais de perto.

Mas não era qualquer um que podia adentrar na propriedade. Era necessário o aval do proprietário uruguaio. Hóspedes do hotel, certamente seriam bem vindos. Mas perambular a toa para querer conhecer as Cataratas não era algo que se poderia fazer por exemplo, sem a permissão dos dono da terra. Que coisa estranha, não ?

No caso dos hóspedes que acabam por se hospedar no hotel de Engel, não era apenas uma questão de desfrutar as belezas mais de perto com calma. O fato é que na época o transporte era tão precário e chegar nas Cataratas demorava tanto tempo que para ir e voltar no mesmo dia ao centro da Vila Iguassu era algo quase impossível de ser feito e ainda desfrutar de um dia de passeio nas Cataratas. Então o melhor era já posar pelas Cataratas para poder passear por lá durante o dia e não ter que varar a noite num cavalo para voltar para a cidade.

 

A filial do hotel de Engel localizada nas Cataratas

 

Sim, pense bem ! Na época, ir para as Cataratas significava passar horas em cima de cavalos. Mais precisamente 6 horas de viagem em cima de um cavalo ! Bem diferente dos atuais 20 minutos de carro que hoje levamos.

O fato é que isso tudo mostra bem o quanto Frederico Engel tinha já uma habilidade nata para os negócios e turismo. Além de não ficar prostrado em seu hotel esperando os hóspedes chegando (ele ia atrás deles, logo contarei como), tratou de logo de lucrar duplamente com os hóspedes, tanto na hospedagem na cidade como na hospedagem na área arrendada nas Cataratas.

Engel, com seu espírito empreendedor, costumava visitar o porto localizado em Posadas para ver se conseguia captar entre os passageiros que desembarcavam dos vapores alguns possíveis hóspedes para serem levados para visitar Foz do Iguaçu e ficarem hospedados em seu hotel.

E quando Engel soube da visita de Alberto Santos Dumont a vizinha Porto Aguirre, não teve dúvidas: tratou logo de convencer o prefeito de Foz do Iguaçu, Jorge Schemelpfeng, de que seria algo muito bom para a cidade atrair o ilustre aviador para a cidade.

Jorge Schemlpfeng foi o primeiro prefeito de Foz do Iguaçu e ficou muito atento às explicações de Frederico Engel. Já que Frederico estava disposto a oferecer estadia ao aviador em seu hotel, não lhe custaria nada fazer as devidas reverências de estadista fazendo um convite formal ao aviador famoso.

Sendo assim, Santos Dumont foi oficialmente convidado para visitar a cidade e de pronto aceitou. Ficou então assim hospedado no Hotel Brasil, o primeiro hotel de Foz do Iguaçu, localizado naquela que futuramente seria a Avenida Brasil. O casarão de madeira em pé direito alto, com seus janelões imensos, se despontava no meio da rua de terra vermelha.

O Encontro de Santos Dumont com as Cataratas

 

Naquele primeiro dia na cidade Santos Dumont já se dirigiu às Cataratas do Iguaçu acompanhado de Frederico Engel e seu filho. O trajeto de 16 km foi percorrido a cavalo e levou aquelas 6 horas que já contei pra você para ser vencido. Mas Santos Dumont estava tão empolgado pra conhecer as quedas que foi no mesmo dia mesmo e encarou as longas horas de rebolado em cima do cavalo. Naquela época eles estavam acostumados a passar tanto tempo viajando a cavalo.

Santos Dumont podia ter criado o 14 Bis há muitos anos mas vamos combinar que carros e aviões não eram coisas corriqueiras ainda pra população. Imagina no Brasil ! Imagina no interiorzão do Paraná, com sua terra batida ! Então era a cavalo mesmo que as coisas eram resolvidas.

Mas foi chegando na área das Cataratas do Iguaçu foi que Santos Dumont ficou ao mesmo tempo maravilhado com tamanha grandiosidade da natureza mas ao mesmo tempo transtornado ao saber que todo aquele território pertencia a uma única pessoa.

Naquela época as Cataratas do Iguaçu eram parte integrante de um terreno de área privada pertencente ao uruguaio Jesús Val.  E como já contei, Jesús controlava a entrada das pessoas que podiam ter acesso a sua propriedade para visitar as quedas d’água, dizendo quem estava autorizado ou não a entrar.

Frederico Engel tinha especial interesse em levar visitantes para o local pois além do seu hotel na região mais central ele também arrendava na área pertencente ao uruguaio um pedaço de terra onde possuía uma filial do seu hotel.

 

Documento de Frederico Engel

 

Ali próximo das quedas Santa Maria Frederico Engel tinha a filial do seu hotel, uma propriedade pequena, de madeira, constituída de apenas 2 quartos e demais aposentos como se apenas uma casa fosse. Mas se mostrava suficientemente apta a receber os turistas de Engel para passar a noite e poder assim desfrutar do passeio junto das quedas após o longo tempo em cima do cavalo para chegar até ali.

Pensando que ida e volta até aquela região levariam 12 horas, realmente ficaria difícil para que as pessoas pudessem desfrutar de um dia gostoso de passeio após tanto cansaço em cima do cavalo. Então uma boa noite de descanso era uma ótima opção antes de iniciar uma bela jornada junto as quedas no outro dia e para desfrutar ao máximo do ar da natureza.

Que diferença de tempos, não é mesmo ? Mas Santos Dumont apreciou muito o passeio e sendo um grande apreciador das alturas adorou poder estar no alto das cachoeiras.

Mas para Santos Dumont foi muito difícil aceitar o fato de uma única pessoa ser “dona das Cataratas”. Tanto que sua célebre frase ficaria marcada em uma placa de metal até hoje aos pés de sua estátua nas cataratas:

 

Placa na Base da Estátua de Santos Dumont nas Cataratas do Iguaçu

 

Foi assim que Santos Dumont, que estava pronto para rumar para o Rio de Janeiro após sua passagem por Foz do Iguaçu, desistiu da viagem e daqui partiu diretamente para Curitiba para ter uma audiência com o então Presidente do Paraná, Afonso Camargo.

 

Santos Dumont muraria os rumos de Foz do Iguaçu

 

Como para ele, distâncias não eram empecilhos, enfrentou mais 6 dias a cavalo até chegar em Guarapuava e depois mais 4 dias em trem e carro para só então chegar em Curitiba. Lá chegando foi ter com o Presidente Afonso Camargo e expressou sua indignação com o fato de ser um único dono o homem proprietário particular de uma maravilha da natureza, que deveria estar servindo de suas belezas e encantos para todos que dela quisessem desfrutar.

 

Frederico Engel.                                           Santos Dumont.                                         Afonso Camargo.

 

Afonso Camargo não só prestou muita atenção em tudo que Alberto Santos Dumont expôs como levou poucos meses para expropriar a propriedade de Jesús Val. O uruguaio não ficou nada contente com o desfecho da história e muito lamentou pelo pouco que recebeu como indenização. Dizia ele que gastara muito mais nas viagens até Curitiba para resolver os imbróglios da indenização do que realmente o valor justo pela propriedade.

Mas foi assim que Santos Dumont mudou completamente o destino das Cataratas do Iguaçu. Alguns anos mais tarde o Parque Nacional do Iguaçu seria enfim criado e a cidade de Foz do Iguaçu seria para sempre transformada por esta passagem do aviador que teve grande influência para que o turismo futuro da cidade existisse da forma que é hoje.

E claro, devemos muito também a Frederico Engel. Não só por ter lutado por trazer Santos Dumont pra cá mas por toda sua história de empreendedorismo e pioneirismo em Foz do Iguaçu.

 

Santos Dumont em Curitiba.                                                    Estátua nas Cataratas do Iguaçu.

 

Aproveita e assista o vídeo sobre como funciona o passeio no Ecomuseu. Nesta visita que fiz e gravei vídeo para o youtube estava tendo uma exposição muito bacana sobre a passagem de Santos Dumont por Foz do Iguaçu e contei um pouco no vídeo.

Santos Dumont em Curitiba.                                                   Estátua nas Cataratas.

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